A exploração da "heresia da separatividade", conceito do budismo tibetano que define a ilusão de que nós, seres vivos, e a Natureza (como um todo) são entidades isoladas e desconectadas, é frequentemente explorada por manipuladores em geral na categorização entre o maldito "nós vs. eles", atestada nas dicotomias clássicas entre direita vs esquerda, oriente vs ocidente, norte vs sul e afins.
A estratificação, desigualdade e exploração de classes existem e, claro, precisam ser combatidas, todavia, ceder à prisão da violência - que está na base desse discurso - inevitavelmente gerará uma nova realidade de opressão pois: "quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é virar opressor" (Paulo Freire).
A neurociência tenta caracterizar a separatividade através dos conceitos de "in-group" e "out-group" ("dentro do grupo" ou "fora do grupo", em livre tradução) e a base disso parece estar em prováveis vulnerabilidades cerebrais na relação do inconsciente individual com o social, conforme trecho de "Subliminar - Como o inconsciente influencia em nossas vidas":
Gostamos de pensar que julgamos as pessoas como indivíduos, e às vezes tentamos de forma consciente avaliar os outros com base em suas características específicas. Em geral conseguimos, Mas, se não conhecemos bem uma pessoa, nossa mente pode procurar respostas em sua categoria social (...) nossa mente subliminar pega dados incompletos, usa o contexto ou outras pistas para completar a imagem, faz algumas deduções e produz o resultados muitas vezes exato, outras vezes não, mas sempre convincentes. Nossa mente também preenche lacunas quando julgamos as pessoas, e a categoria que a pessoa pertence é parte dos dados que usamos para fazer isso.
Somos reféns da forma, da imagem, do externo, do que aparenta, da associação que fazemos ao enxergar determinadas pessoas como parte dos grupos dos quais fazemos parte (mesma cidade, estado, região, time de futebol, religião, gênero, etc.). Tendemos a ser a favoráveis a quem vemos como semelhantes e hostis na relação contrária. Tudo isso é explorado no mesmo livro quando o autor discorre sobre como "vieses perceptivos de categorização" são a base do preconceito (segundo estudos do psicólogo Henri Tajfel), ao buscar sobre in-groups e out-groups na Wikipedia [1], temos:
Em neurologia, há uma literatura estabelecida sobre a propensão inata do cérebro humano para dividir o mundo em nós e eles categorias de valência, onde a exata associação do grupo interno e externo é socialmente contingente (portanto, vulnerável aos instrumentos de propaganda), e a intensidade existente ao longo de um espectro pode ir de um nível mais leve até uma completa desumanização do grupo oposto, os "outros".
No livro "Cérebro Relativístico", Miguel Nicolelis escreve:
Antes de qualquer encontro com um novo evento, digamos, um novo estímulo tátil, o cérebro expressa o seu 'ponto de vista' através da aparição súbita de uma onda de atividade elétrica, distribuída por todo o córtex e estruturas subcorticais, que se antecipa ao estímulo sensorial. A presença desse sinal que indica a expectativa interna do cérebro em relação ao futuro imediato justifica a hipótese de que o cérebro 'vê antes de enxergar'.
Parece que realmente existe uma vulnerabilidade cerebral, que molda a percepção que temos da outra pessoa (ou melhor: do universo) e, em última instância, alimenta a separatividade, como instinto animalesco "natural", pelo medo do novo, desconhecido ou diferente.
No livro "Comunicação Não Violenta" de Marshal Rosenberg, temos um indício de como a predisposição ao preconceito e separatividade pode ser construída quando analisamos a linguagem:
A relação entre linguagem e violência é tema das pesquisas de O. J. Harvey, professor de psicologia da Universidade do Colorado. Ele pegou amostras aleatórias de obras literárias de países mundo afora e tabulou a frequência das palavras que classificam e julgam as pessoas. Seu estudo constata elevada correlação entre o uso frequente dessas palavras e a incidência de violência.
O autor sugere que o discernimento entre juízo de valor e juízo moral, junto a remodelagem de como utilizamos a linguagem (Programação em Neurolinguística pura), pode ser um caminho para atenuar nossa potencial vulnerabilidade implícita. Talvez o budismo tibetano esteja certo... encarar a separatividade como heresia e ilusão parece, ao meu ver, ser um belo exercício diário para a Vontade se sobrepor ao instinto.
Muita Luz para nós.
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