Separatividade, preconceito, neurociência e potenciais vulnerabilidades cerebrais dualistas

A exploração da "heresia da separatividade", conceito do budismo tibetano que define a ilusão de que nós, seres vivos, e a Natureza (como um todo) somos entidades isoladas e desconectadas, é frequentemente explorada por manipuladores em geral na categorização entre o maldito "nós vs. eles", atestada nas dicotomias clássicas entre direita vs esquerda, oriente vs ocidente, norte vs sul e Brasil vs Argentina.

A estratificação, desigualdade, racismo, xenofobia, machismo, preconceitos, exploração de classes e de todo tipo existem e, claro, precisam ser combatidas, todavia, ceder à prisão da violência - que está na base do discurso separatista, dualista, desintegrador - inevitavelmente gerará uma nova realidade de opressão, um outro tipo de violência ou exploração.

"Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é virar opressor" (Paulo Freire)

A neurociência tenta caracterizar elementos da separatividade através dos conceitos de "in-group" e "out-group" ("dentro do grupo" ou "fora do grupo", em livre tradução) e a base disso parece estar em prováveis vulnerabilidades cerebrais na relação do inconsciente individual quando interage com o social, conforme trecho de "Subliminar - Como o inconsciente influencia em nossas vidas":

Gostamos de pensar que julgamos as pessoas como indivíduos, e às vezes tentamos de forma consciente avaliar os outros com base em suas características específicas. Em geral conseguimos, Mas, se não conhecemos bem uma pessoa, nossa mente pode procurar respostas em sua categoria social (...) nossa mente subliminar pega dados incompletos, usa o contexto ou outras pistas para completar a imagem, faz algumas deduções e produz o resultados muitas vezes exato, outras vezes não, mas sempre convincentes. Nossa mente também preenche lacunas quando julgamos as pessoas, e a categoria que a pessoa pertence é parte dos dados que usamos para fazer isso.

Ou seja: sentenciamos pessoas a determinadas rótulos ou categorias de forma semi-automática e, criamos certeza mais frágeis que o ego de um homem hétero ocidental mediano e, pior, as defendemos com a mesma teimosia.

Quanto mais desatentos, mais caímos nessa armadilha pseudo-natural.

Somos reféns da forma, da imagem, do externo, da aparência, da superfície, da associação que fazemos ao enxergar determinadas pessoas como semelhantes, ex: parte dos grupos dos quais fazemos parte (mesma cidade, estado, região, time de futebol, religião, gênero, raça, etc.). Tendemos a ser a favoráveis a quem vemos como semelhantes e hostis na relação contrária. Os "vieses perceptivos de categorização", outro conceito da neurociência, segundo estudos do psicólogo Henri Tajfel, são a base do preconceito.

Os objetos desses vieses, apontam para os dois conceitos supracitados de in-groups ("dentro do grupo", "interno" ou endogrupo) e out-groups ("fora  do grupo", "externo" ou exogrupo):

Em neurologia, há uma literatura estabelecida sobre a propensão inata do cérebro humano para dividir o mundo em nós e eles, onde a exata associação do grupo interno e externo é socialmente contingente (portanto, vulnerável aos instrumentos de propaganda), e a intensidade existente ao longo de um espectro pode ir de um nível mais leve até uma completa desumanização do grupo oposto, os "outros". (Wikipedia [1])

(

Ser vulnerável aos instrumentos de propaganda inclui os algoritmos das redes sociais, que lucra ao sequestrar nossa atenção; explorar alguma emoção, um bom alvo: o ódio via dualidade ou injustiças; que geram indignações, induz generalizações, estipulam lados (A e B,) e no fim de tudo: tudo isso existe para gerar lucro e poder para quem controla esse mecanismo

Voltando, o maior perigo de sermos reféns desse habito automático (pleonasmo), é que no limite do limite, os regimes sectários, fascistas, nazistas, supremacistas ou autoritários exploram esta vulnerabilidade e são nutridos por este tipo de percepção de uma sociedade contaminada, tal qual um vírus na BrainNet ou no seu inconsciente coletivo, até chegar numa "completa desumanização do grupo oposto" e a violência alcançar, como sabemos da história, tragédias colossais.

Temos um outro indício descrito no livro "Cérebro Relativístico", do grande Miguel Nicolelis:

Antes de qualquer encontro com um novo evento, digamos, um novo estímulo tátil, o cérebro expressa o seu 'ponto de vista' através da aparição súbita de uma onda de atividade elétrica, distribuída por todo o córtex e estruturas subcorticais, que se antecipa ao estímulo sensorial. A presença desse sinal que indica a expectativa interna do cérebro em relação ao futuro imediato justifica a hipótese de que o cérebro 'vê antes de enxergar'.

Se essa onda de atividade súbita for a origem do instinto de sobrevivência, que ativa o medo do novo, desconhecido ou diferente, ou até um predador? Talvez esse sinal já seja a medição do início da cadeia dessa vulnerabilidade cerebral dualista, o futuro dirá.

O que já temos certeza é que a Realidade é inalcançável e nossa percepções, emoções e predisposições inconscientes moldam a percepção e criam ilusões em relação ao outro (ou do universo). Em última instância, a separatividade pode surgir como instinto animalesco "natural", pela cultura, propaganda, comunicação...

No livro "Comunicação Não Violenta" de Marshal Rosenberg, temos um indício de como a predisposição ao preconceito e separatividade pode ser construída quando analisamos a linguagem:

A relação entre linguagem e violência é tema das pesquisas de O. J. Harvey, professor de psicologia da Universidade do Colorado. Ele pegou amostras aleatórias de obras literárias de países mundo afora e tabulou a frequência das palavras que classificam e julgam as pessoas. Seu estudo constata elevada correlação entre o uso frequente dessas palavras e a incidência de violência.

O autor sugere que o diferir o juízo de valor vs juízo moral, junto a remodelagem de como utilizamos a linguagem com nós e com os outros (Programação em Neurolinguística pura), pode ser um caminho para atenuar nossa potencial vulnerabilidade dualista implícita.

Talvez o budismo tibetano esteja certo... encarar a separatividade como heresia e ilusão parece, ao meu ver, ser um belo exercício diário para a Vontade se sobrepor ao instinto. Vamos à luta.

Uma luta através da união, integração, fraternidade, compaixão, rigor, disciplina e conquista de corações.

"Guardar raiva é como segurar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; é você que se queima." (Buda) 

Muita Luz para nós. 

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